Uma coleção pública e próxima

Fabiola do Valle Zonno (PROARQ e PGPP / FAU -UFRJ)

Atlas.Memória.UFRJ é uma exposição e ação de educação patrimonial que enlaça arquitetura e fotografia, partindo da coleção de lugares onde a UFRJ habita - patrimônio de valor histórico e artístico, além de valor simbólico para nossa identificação como instituição pública, democrática e próxima.

Como docentes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a experiência destes edifícios é oportunidade de lições de arquitetura as mais diversas - sobre o desafio de construir, propor espaços para a vida e criar imagens poéticas - constituindo nossa cultura arquitetônica. A consciência de que este patrimônio deve ser vivido, ou seja, de que é preciso preservar os edifícios enquanto espaços que nós habitamos hoje, se soma à necessidade de sermos dele "próximos", no sentido daqueles que partilham e constroem memória cotidianamente, valorizam significados existentes ao mesmo tempo em que criam novos. A atividade educadora que exercemos na Universidade deve incentivar a perceber e tornar seu, respeitosamente, este patrimônio já tão ferido pela falta de recursos para preservá-lo. A ação de educação para este patrimônio universitário, dirigida não só à comunidade interna mas também ao público externo, deve explorar diferentes meios, práticas interdisciplinares, mas acima de tudo pretender-se relacional - um processo participativo.

Com este intuito, o projeto desta exposição foi concebido, em 2019, como evento comemorativo pelo Centenário da UFRJ; foi interrompido - como muitas das nossas atividades - e retomado no final de 2020. Neste quadro em que passamos a trabalhar conectados on-line, reconhecemos a singularidade de perceber estes edifícios na condição de não habitados e os recursos digitais como meios de potencializar uma maior aproximação na experiência da própria exposição. Para tal, e consoante aos conceitos que norteiam nossa pesquisa, a arquitetura deste sítio eletrônico foi especialmente pensada em sua navegação e design.

As seções Álbuns, Ensaios e Montagens apresentam frutos de pesquisa histórica e experimentação artística - “gestos vitais” e transformadores de nosso modo de conhecer e pertencer a estes lugares, assim como pode ser a sua participação neste projeto realizando Sua Montagem. Tais gestos foram também um modo de sobreviver à distância imposta pelo isolamentos social e afastamento físico dos espaços de trabalho e estudo na UFRJ entre 2020 e 2021. Um modo de dizer que estes lugares, outrora tão vividos, significam para nós. E importa frisar que esta exposição se inaugura na oportunidade de agora retornarmos, diferentes, a estes lugares.

Arquitetos e urbanistas ensaiamos fotografá-los naquele contexto, sensibilizados pelo vazio, por presenças e ausências, sobrevivências. Criamos imagens que perseguem indícios e evocam os significados deste patrimônio, como o percebemos e o valorizamos, sobretudo, como dele nos apropriamos como espaços “vividos". Não necessariamente dominamos as técnicas da fotografia, mas reconhecemos o valor da experimentação de outros meios para desnaturalizar o olhar e expor nosso próprio contato com as situações de modo singular. Exploramos a fotografia como um modo de interpretação autoral, fruto de um processo de trocas e discussões coletivas do grupo sobre o gesto de fotografar e sobre a imagem fotográfica, entre o documental e a possibilidade poética.

Imagens advindas da pesquisa histórica e de nossos ensaios fotográficos constituíram então um acervo múltiplo a ser utilizado, ativado pela "virtualidade" da memória em suas possibilidades infinitas de conservar o passado e se relacionar com o "atual". Nós apresentamos este acervo, possibilitado pelo meio digital, como um campo movente, com o objetivo de instigar a imergir nas próprias imagens e, a partir de suas forças, da memória e da imaginação, produzir "montagens", "mapas", um “Atlas” dos lugares-patrimônio da UFRJ. Através destes mapas outros, podemos percorrer e re-conhecer a Universidade.

Cada imagem fotográfica é potência do "afecto" e se torna diferente, a cada vez, quando posta em relação com outras imagens. Se a memória é plástica e construída no presente, este Atlas pretende ser um convite a perceber, nos movimentos do tempo e através dos movimentos das imagens, "o que se repete e se diferencia", "afinidades" e "choques" entre tempos heterogêneos, fazendo-nos meditar sobre valores e imaginar estes lugares como parte da vida universitária ontem e hoje.

Conjugando imagem e tempo, a memória pode tomar diferentes formas, linhas, que nos instigam a conhecer os espaços em que vivemos. Em Álbuns, onde se materializa um fluxo cronológico, situando cada feição arquitetônica, reconhecemos permanências e transformações. Em Montagens, configuram-se tramas anacrônicas, que instigam a pensar através de relações, aproximações e intervalos entre imagens. Como nos sonhos, ou nas artes de cunho onírico ou conceitual, uma imagem ou um fragmento de imagem pode nos tomar com sua força e se dobrar em outra imagem próxima que, por sua vez, ganha outra vida. “Afinidades” (insuspeitas), tensões e “choques” fazem ver e sentir, abrem e complexificam o campo dos significados dos lugares, entre tempos. As montagens emergem, antes de tudo, de uma potência, desejante, de imergir nas imagens e de viver um processo com elas – montar-desmontar-remontar: um “jogo” a partir de nossas sensibilidades, memória e imaginação, que ensaia uma forma aberta, fixa apenas provisoriamente, para criar diferentes possibilidades de leitura. Realizar Sua montagem é aceitar o convite de participar deste jogo, infinito, e construir conosco este Atlas.Memória.UFRJ. Acreditamos que a construção de memória de nossa instituição pode se fazer, a cada jogada, tomando uma configuração diferente, abrindo a possibilidade relacional de sensibilizar e abrir questões.

Esta exposição é um gesto auto exposição, não porque pretendamos o reconhecimento destes produtos em si, mas porque partilhamos aqui o engajamento em um processo, que já se constituíra um programa de ações de nossa pesquisa “Entre Arquitetura, Arte e Paisagem”, realizado em outros lugares, e que se desdobra nesta exposição em nossa UFRJ: dispor-nos a perceber através da experiência errante; registrar poeticamente nossas passagens experimentando diferentes meios, em especial, a fotografia; imergir em imagens e montar Atlas como um modo de engendrar outras "tramas" sobre o passado e ensaiá-lo também com a participação dos "próximos" - os atores cotidianos dos próprios lugares, que partilham e constroem memórias. Isto para buscar reconhecer significados e pensar, como arquitetos e urbanistas, seus futuros possíveis. Mas é, sobretudo, um gesto comemorativo pelos 100 anos da UFRJ, expondo sua coleção de arquitetura - nossa casa pública e herança - da qual devemos ser, eticamente, próximos.

Bibliografia

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