Edifício Jorge Machado Moreira

Av. Pedro Calmon, 550 – Cidade Universitária, Rio de Janeiro

Data

De 1950 até 2021

O edifício da Faculdade Nacional de Arquitetura, atual Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, foi projetado pelo arquiteto Jorge Machado Moreira [1] entre 1953 e 1957 para abrigar o curso de Arquitetura emancipado da Escola Nacional de Belas Artes [2] desde 1945.

Concluído em 1961, simboliza a síntese da vontade artística e técnica modernas como criação de uma nova imagem cultural, celebrada desde o projeto do edifício do Ministério da Educação e Saúde (atual Palácio Gustavo Capanema) e culminante em Brasília.
Premiado na Bienal de Arquitetura de São Paulo em 1957, é um dos mais importantes exemplares do Modernismo no Rio de Janeiro e um dos primeiros edifícios erigidos na Ilha do Fundão no contexto da implantação do ideal de um campus universitário: “espaço físico, com certo isolamento para suas elevadas finalidades, manutenção e cultivo do seu espírito, em extensão de dominância horizontal” (MELLO JÚNIOR, 1985).

A ideia de implementar uma cidade universitária surge em 1935 e a Quinta da Boa Vista é primeiro escolhida como local de implantação, que teve um projeto de Le Corbusier e outro de equipe formada por Lucio Costa, Firmino Saldanha, Affonso Eduardo Reidy e Paulo Fragoso recusados; esta equipe chegou inclusive a propor um projeto alternativo, para instalá-la sobre estacas na Lagoa Rodrigo de Freitas. Mas já em 1940, são contratados os engenheiros Otacílio Negrão de Lima e os arquitetos Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Helio Uchoa, Atílio Correa Lima e Jorge Machado Moreira e o desenhista Aldary Toledo para estudar outras possibilidades de local para a implantação do campus. É criado o Escritório Técnico da Universidade do Brasil (ETUB, atual ETU) e o engenheiro Horta Barbosa realiza, com apoio de técnicos e especialistas, uma revisão de todos os projetos, aprovando-se, em 1945, a instalação na Ilha do Fundão. As obras de um aterro para formar uma grande ilha, a partir das nove existentes (ao final, oito) se iniciam em 1949. Jorge Machado Moreira é escolhido Arquiteto-Chefe e trabalha de 1949 a 1962 na concepção urbana do projeto e depois em suas edificações com sua equipe[3] (MELLO-JÚNIOR, 1985). Foram projetados 12 edifícios, dos quais apenas 5 foram construídos: Instituto de Pediatria e Puericultura de 1953; a Escola Nacional de Engenharia de 1956; a Faculdade Nacional de Arquitetura de 1957; Hospital das Clínicas (atual Clementino Fraga Filho, de 1957) e a Oficina Gráfica de 1963.

“O espaço foi concebido como parque contínuo, atravessado pelas tramas das vias de automóveis e pedestres, conectando os edifícios, tratados como volumes isolados. A contraposição de blocos horizontais dominantes a blocos verticais excepcionais é a estratégia plástica adotada por Jorge Machado Moreira para estrutura a paisagem da ilha.” (CZAJKOWSKI (Org.), 2000, p.118) (continua ...)

[1] Jorge Machado Moreira foi presidente do Diretório Acadêmico da ENBA, ativo participante das discussões sobre o ensino, apoiando a reforma com viés de engajamento em valores modernos, proposta pelo então Diretor da ENBA, o arquiteto Lucio Costa. Formou-se na ENBA em 1932 e, com Ernani Vasconcellos, participou do concurso para a realização do edifício do Ministério da Educação e Saúde (MES), com um projeto francamente moderno, que é desclassificado pelo júri. De 1936 a 1943, tendo Lucio Costa como líder, Jorge Moreira participa, com Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos e Oscar Niemeyer, da equipe que de fato projetou e construiu a nova sede do emblemático edifício, que teve consultoria de Le Corbusier. Participou do projeto para a Cidade Universitária, na Quinta da Boa da Vista.

[2] O curso de Arquitetura integrou a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios já nos seus primeiros anos, em 1816, sob a égide do mestre e arquiteto francês Grandjean de Montigny, que projetou a sua primeira sede em moldes neoclássicos inaugurada em 1826 – somente o pórtico central deste edifício é preservado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em 1908, os cursos foram transferidos para o edifício eclético, projetado por Afonso Morales de los Rios, atual Museu Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro. Após a criação da Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA) em 1945, o curso deixa o edifício e se muda para uma das alas do então restaurado edifício do antigo Hospital dos Alienados, atual Palácio Universitário, na Praia Vermelha. (MELLO JÚNIOR, 1961).

[3] A equipe de Jorge Machado Moreira, em 1951, reunia os arquitetos: Aldary Toledo, Sérgio Ivan Nacinovic, João Correa Lima, Otto Eduardo Paulino, Manuel José Villela, Orlando Madalena, João Henrique Rocha, Norlize Martha Killer, Alda Rabello Cunha, Giusepina Pirro, Astor Read de Sá Róriz e José Durval Cordeiro Sobrinho, além do chefe dos desenhistas, Aylton de Sá Rego. A equipe, em 1953, passa a incluir: Wilson Reis Netto, Adelle Weber, Lauro Francisco Paraíso, Carlos Alberto Boudet Fernandes, Mario Guilherme da Silveira, Norma Cavalcanti Albuquerque, Conceição Maria Pereira de Mattos Penna, Donato Mello-Júnior, Otávio Sérgio da Costa Morais, Marco Tullio Dias Serrano, Elias Kaufmann, Otávio Gomes de Medeiros Filho, Arlindo de Araújo Gomes (MELLO-JÚNIOR, 1985)./p>

Data

2021

Nos últimos anos, têm sido realizadas obras de reconstrução dos espaços comprometidos pelos sinistros, além de recuperação estrutural e renovação de infraestrutura, conduzidas sob projeto e supervisão do ETU-UFRJ. O espaço tem sido compartilhado entre as Unidades FAU e EBA, aguardando sua total reabilitação para que tenha sua vida plena.

Data

2021

Novo incêndio atingiu o edifício, em abril de 2021, com prejuízo para o espaço do Núcleo de Pesquisa e Documentação (NPD) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo que tem sob sua guarda importante acervo, relacionado a projetos de arquitetos de destaque no cenário nacional e ao ensino na instituição.

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2016

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2017

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2016

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2014

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2014-2016

O conjunto arquitetônico e paisagístico possui valores históricos e artísticos inquestionáveis. Sua proteção, porém, pelos órgãos públicos competentes é recente e ainda em caráter provisório. Primeiro se deu a dos jardins e painel de autoria de Roberto Burle Marx, pelo Decreto 30.936 de 2009, ano de comemoração do centenário do artista. Posteriormente, a proteção do edifício, após o incêndio ocorrido no 8º andar, através do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, pelo Decreto Municipal de Tombamento n. 42.710 de 29 de dezembro de 2016. Nesse mesmo ano, passa a ser denominado, por deliberação da Reitoria da UFRJ, Edifício Jorge Machado Moreira.

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2014-2016

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É amplamente reconhecida a semelhança de partido com o projeto para o edifício do Ministério da Educação e Saúde (Palácio Gustavo Capanema), cuja concepção teve consultoria de Le Corbusier, participando Jorge Machado Moreira, ao lado de Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Affonso Eduardo Reidy e Ernani de Vasconcelos.

Roberto Conduru, no texto “Razão ao Cubo” de 1999, afirma tal interpretação dos preceitos racionalistas de Le Corbusier no pensamento de Jorge Machado Moreira, entre a “contemporaneidade e classicismo” no projeto da FNA:

“A conjugação discreta de formas da geometria de Euclides revela uma estratégia de formalização espacializante que procura conter em sínteses equilibradas o dinamismo inerente aos programas complexos das funções contemporâneas e aos esforços empreendidos pelos materiais e elementos estruturais nas novas técnicas de construção, configurando uma montagem pura, equilibrada e sólida.” (CONDURU, 1999, p.28-29)

Uma arquitetura que se reporta ao ideal clássico da “arte como mediadora da harmonia entre homem e natureza” e é reconhecível como arte construtiva moderna por sua “translucidez fenomenológica que dá a perceber o espaço que o edifício institui ao se formar (...), alternando embates frontais e oblíquas para evitar uma única imagem opressiva”. (CONDURU, 1999, p. 29).

Data

Década de 1970

Porque o espaço do edifício, antes projetado exclusivamente para o Curso de Arquitetura, encontrava-se com população inferior àquela para o qual havia sido projetado, a Reitoria passou também a habitá-lo ocupando o bloco B e oitavo andar e o Centro de Letras e Artes (CLA), o térreo. Em 1974, Escola de Belas Artes, passou a ocupar o sexto e o sétimo andares do bloco A e parte do bloco D do Edifício da FAU. Em 1979, veio a se instalar no quinto andar a Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (PUR), que originou, em 1987, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) e, a partir de 2010, o edifício passa a abrigar também o curso de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social (GPDES).

Em depoimento por ocasião da comemoração dos 65 anos da FAU UFRJ em 2010[1], Maria Julieta Nunes lembra o vivido do espaço, em tempos de ditadura militar, com uma relação muito próxima com a música, e depois na relação com os estudantes da Escola de Belas-Artes:

“Na turma dos anos 70, onde nada podia, podia música. A Faculdade de Arquitetura fazia convergir pessoas vinculadas ao estético, estético físico, mundo da aparência, e estético pela música, gosto pela música. A gente tinha essa compensação de fazer música, de cantar muito, não tinha grupo, não tinha uma banda, cada um trazia o seu instrumento e, diariamente, ia pra um atelier e cantava. Chorava-se um pouco as mágoas, pela música, da ausência de vida pública que a gente vivia. (...) Voltei para a Faculdade de Arquitetura em 1981. Um hiato de cinco anos e tantas coisas aconteceram. Em 1981, já estava a EBA. A EBA povoou esse lugar. Nós caminhávamos para a redemocratização.” (Nunes apud SANTOS e ZONNO, 2019, p.86).

[1] Vídeo produzido pela docente Paula Albernaz.

Data

1964

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1964

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1963

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1963

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1961

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Década de 1960

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Década de 1960

O projeto foi concebido para 900 alunos, com quatro turmas para aulas teóricas e oito turmas de oito alunos para aulas práticas por ano, para “dar ao aluno ampla possibilidade de trabalho prático, visando à eficiência no ensino” (Anuário FNA 1961 apud SANTOS e ZONNO, 2019).

Data

1958

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Década de 1950

O edifício foi inaugurado em 1961, entretanto, os alunos, ansiosos em se mudar para o primeiro prédio projetado para ser uma faculdade de arquitetura, visitavam as novas instalações mesmo antes de sua inauguração.

Na reportagem, em 1960, reproduzida abaixo, os alunos reclamam a necessidade de verbas para o término das obras:

“120 alunos da Faculdade Nacional de Arquitetura estiveram na Ilha do Fundão, em visita às obras da Cidade Universitária. Querem 15 milhões de cruzeiros para a conclusão do prédio até o fim do ano, pois é desejo dos estudantes mudar logo para lá. Será feito um apelo a JK para incluir a Cidade Universitária entre as suas metas.” (Manchete, 28/05/1960)

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Década de 1950

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Década de 1950

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O edifício foi concebido como uma composição de quatro blocos, articulados em bases racionais, estética e funcionalmente. O Bloco A – uma lâmina vertical sobre pilotis e com terraço jardim, possui seis pavimentos que abrigavam salas de aula teóricas e práticas situadas com relação à incidência solar – um para cada um dos cinco anos de formação e o último para o Curso de Urbanismo; as salas práticas de prancheta possuíam armários e gavetas planejados para o exato número de oito alunos previsto. A ele somam-se dois pavimentos de base, blocos horizontais, um para aulas práticas especiais – Bloco D; outro para biblioteca – Bloco B, e um de administração – Bloco C, além de um auditório para 250 pessoas e a previsão de um Museu de Arquitetura Comparada (Bloco E - não construído).

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Década de 1950

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Década de 1950

A implantação é constituída na relação com a orientação solar e o sistema viário do campus, valorizando a continuidade com o verde conforme ideal moderno, destacando-se dois pátios mais reservados.

A cobertura também era pretendida como espaço de contemplação da paisagem a partir de um terraço jardim.

Integrado ao edifício, destaca-se desde à entrada o painel artístico de autoria de Roberto Burle Marx – relevo em concreto, com elementos compostos em consonância com o espírito construtivo do edifício.

Como paisagista, Burle Marx foi contratado, em 1953, para o “ajardinamento” da Ilha Universitária”, e foi convidado, em 1957, para elaborar os jardins do edifício da FNA. Entretanto, o projeto da FNA foi entregue ao ETUB em maio de 1960.

Data

1951

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1951

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Década de 1950

Destacam-se como características marcantes do edifício a modulação e a padronização dos elementos construtivos. Como observa Paulo Jardim de Moraes, o módulo (M) adotado foi de 1,225m e seus múltiplos e submúltiplos aparecem em todos os elementos do edifício, tais como: 2M = 2,45m (intercolúnio nos pavimentos tipo); M/8 = 15,3125cm (azulejos); M/2 = 61,25cm (armários e tacos de piso). Esta modulação é um elemento gerador da composição do edifício, encontrada na determinação de vãos e elementos vários desde as fachadas aos espaços internos. (MORAES, 2018).

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Década de 1950

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Década de 1950

A visão de modernidade construída transparece em uma abordagem plástica com base no purismo da forma e racionalidade da estrutura, somada aos recursos da técnica construtiva em concreto armado. O conjunto do térreo e do mezanino em curva livre cria um sentido único de espaço em altura, estendendo-se aos pilotis – um emblema do espaço fluido e contínuo moderno, em sua potência para apropriação pública.

Data

1951

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Década de 1950

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Década de 1950

Bibliografia

CONDURU, Roberto Torres. “Razão ao Cubo”. IN: CZAJKOWSKI, Jorge (Org.). Jorge Machado Moreira. Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo, 1999, p.14-33.

CZAJKOWSKI, Jorge (Org.). Guia da Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2000.

“Está faltando verba.” Manchete, 28/05/1960.

MELLO JÚNIOR, Donato. “Um campus universitário para a cidade do Rio de Janeiro”, Arquitetura Revista FAU UFRJ, v.2, 1985, p.52-71. MORAES, Paulo Jardim de. “Edifício Jorge Machado Moreira e o Movimento Moderno em chamas” [outubro 2017]. Cadernos PROARQ, n.31, dez. 2018.

SANTOS, Mauro e ZONNO, Fabiola do Valle. “Edifício Jorge Machado Moreira: morada dos artistas”. IN: TERRA, Carlos e GRIMALDI, Magdalena (Orgs.). 200 anos da Escola de Belas-Artes. Rio de Janeiro: Rio Books, 2019, p.74-89.

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